segunda-feira, 15 de maio de 2017

Eu sei, mas não devia



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti (1972)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

E se ele é de libra?



Ele não sabe se vai ou se fica, mas fala com você como se tivesse o poder de mexer com tudo la dentro, como se seus órgãos pudessem responder por si só. 

Ele sabe como agradar, servir um jantar e  não vai entender nada sobre o tal quadro bizarro na parede da galeria, muito menos porque ciano não pode ser somente chamado de azul, mas vai sorrir e acreditar em você. Vai te olhar calmo e desviar os olhos, segurar as suas mãos e você vai perguntar o que foi. Só pra ouvir: nada, estou só te olhando. 

Tem coisas que só fazem sentido pra libra, coisas que se a gente fosse colocar numa balança penderiam mais prum lado do que pra outro. No cinema a escolha é sua. No restaurante também. E você se irrita, talvez porque você queira que ele tome as decisões certas na vida e ele não toma, não sabe o quer, quer o mundo e quer você, mas será que dá pra ter tudo isso? Ele não sabe. No fundo, ele é só um menino perdido no meio de um monte de coisa.

Por mais que ele seja galante, por mais que você ouça os horóscopos extrapolarem por aí a fama de conquistador, ele não gosta muito de múltiplos amores. O que ele busca é um ninho, Se for você, o mundo dele tá completo e não tem nada fora de casa que não faça ele voltar. Vai ser você e ponto.

Ele é de libra quando bota uma playlist pra tocar e joga você na cama só pra ficar juntinho, quando te puxa pra dançar de pés descalços, quando te pergunta se você pode ir com ele descobrir o mundo. Ele é de libra até quando deixa o signo de lado pra ser só seu.

Num fim de tarde


E se, num fim de tarde qualquer, abrigados sob o mesmo cobertor, tivermos certeza?

Certeza de que, independentemente do que aconteça, valerá a pena. Certeza de que todos os nossos preciosos momentos serão somados na carga horária dos nossos sentimentos, como valiosos passos para a construção dos nossos sonhos. Certeza de que a cada dia vivido, compreenderemos mais os anseios um do outro, até que os nossos olhares respondam por nós e os nossos sorrisos sejam como pontos finais a encerrarem os nossos diálogos.

Certeza da importância das quedas como sinal de contínuo aprendizado e dos braços sempre estendidos, prontos para sempre amparar, sempre proteger. Certeza de que, ainda que vivêssemos debaixo do mesmo teto, saberemos entender que o espaço que necessitamos e que nos caracteriza como indivíduos, deve ser o mesmo que não nos deixa dormir sozinhos quando a noite vem. Certeza de que há amor em cada uma das entrelinhas que compõem a nossa nova vida e que – um dia de cada vez – seguiremos vivendo a mais bela história, até então jamais escrita.

Particularmente, tenho algumas pequenas certezas. Certeza de que quero acordar todos os dias, para dizer que te amo, para te dizer que espero eternamente o teu abraço e o teu sorriso mais sincero. Certeza que quero um pouco mais de tempo, para te dizer com calma, que as palavras que saem da tua boca, são as mesmas que tocam a minha alma. Certeza que quero um pouco mais de fôlego, para partilharmos beijos intermináveis, elevando nossa troca de energias a valores humanamente incalculáveis. Certeza que quero um pouco mais de ti, para te mostrar que estou completamente imersa, neste amor completamente nosso.

~Nyann


quarta-feira, 15 de março de 2017

Quando nossas mãos se encaixam




Eu sinto que estamos mais próximos do que nunca.

Como jamais estivemos. Nossos corpos nem precisam estar no mesmo espaço, tampouco no mesmo ambiente. Eles apenas coexistem – de um jeito que não tem como explicar, afinal, não há nenhuma forma de traduzir em palavras o que está, enfim, acontecendo.

Sabe aquele tal alinhamento de planetas que só vemos depois de muito, muito tempo? Me sinto dessa forma. Eu sou Júpiter e, você, Saturno. Perceba: posso estar longe, mas quando você passa com esta órbita alucinante, não tem como não sentir a sua presença.

Não dá para ignorar tamanha atração, ainda mais quando ela se dá repentinamente. Por aqui, há um caos disfarçado de calmaria – que esconde um iceberg gigantesco de inúmeros pensamentos arquivados em mim: será que você vai me perceber?

Não vou mentir que, antes de dormir, já imaginei isso tudo acontecendo algumas vezes. Na minha imaginação, em alguns dias era frio, em outros fazia um calor incrível com o céu azul lá fora. Em todas as imagens, existia um ponto em comum: a gente se aproximava.

Finalmente, a gente se enxergava daquele jeito que transcende os corpos e vê muito além do que está ali.

E quando o momento do encontro acontece, parece até que estamos eletrizados. A energia que vem de você mudou. De fato, tudo mudou.


E quando você caminha em minha direção, a vontade que dá é de apressar logo as coisas: pular no seu abraço, te dizer o quanto te adoro e poder aproveitar cada segundo na sua companhia, observando tudo de mais lindo em você.

Mas não vou atropelar nada.

Guardo esta vontade aqui no meu íntimo e espero, porque sei que não vai demorar muito, as coisas acontecerão naturalmente, do jeito que tem que ser. Afinal, agora você já está muito mais perto do que antes.

~Nyann


quarta-feira, 8 de março de 2017

Mas desliga a luz



Um monte de homens se perguntam porque algumas mulheres na intimidade, têm a tendência de se tapar a cara e dizer: "Mas desliga a luz".

Deixe-me responder a essa pergunta.
A maior parte do tempo as mulheres fazem isso, porque se sentem inseguras sobre seu corpo. Como se seu corpo não fosse suficientemente belo! Se cobrem a cara porque não querem ver a reação do homem ao ver o seu corpo completamente nu.

Sobretudo existem homens que as fazem sentir dessa forma, fazendo-as pensar que seu corpo não é o suficiente e lindo, e diminuindo a auto-estima dela, isso é porque os inseguros e egoístas são eles. Da próxima vez que ver uma mulher fazer isto, beija sua boca com carinho sua testa e ao chegar perto de seu ouvido, sussurre que ela tem um corpo espetacular, abrace-a e deixa o sexo para depois.

Primeiro dá a segurança de que seu corpo é lindo e agradece a essa mulher por permitir que acontecesse esse momento. 
Pois na verdade todas as mulheres são belas e saciáveis, porem basta você despertar isso dentro delas com paciência...!

~Nyann